Património e Reconversão

25 Abr

(Depoimento Jornal de Leiria, 13 de Fevereiro de 2011)

O JORNAL DE LEIRIA está a preparar um trabalho, a publicar na próxima edição, sobre edifícios públicos/estatais existentes em algumas cidades da região, desocupados há anos, e que poderiam ser recuperados e contribuir para a valorização de determinadas zonas. No entanto, verifica-se actualmente que há mais situações de edifícios públicos desocupados há anos e a degradar-se do que aqueles que foram recuperados e ganharam novas utilizações. No caso de Leiria, por exemplo, podemos apontar como exemplos negativos o ex-DRM, o antigo convento dos Capuchos ou a Igreja da Misericórdia localizados em zonas importantes da cidade, mas que estão ao abandono há vários anos. Podemos ainda referir o caso das antigas instalações do Instituto do Vinho e da Vinha, junto à estação de caminhos de comboios de Leiria, que estão também devolutas.

Face ao exposto, venho, por este meio, solicitar a sua colaboração para o referido trabalho, através da resposta às seguintes questões:

1 – Muitas vezes, quando é necessário construir um novo equipamento público, opta-se por uma edificação de raiz em detrimento da recuperação do antigo. Por que é que isto acontece? É uma questão de mentalidades?

Parece-me que não se trata sobretudo de uma questão de mentalidades.

Essa é uma questão bem mais complexa para a qual concorrem factores tão distintos como a a noção de património, entendido como um recurso, um bem, cujo valor, estratégico, deve ser naturalmente rentabilizado de acordo com a lógica do proprietário – que neste caso é distinta conforme se trate do Estado ou do Município; a compatibilidade programática dos novos usos com os usos permitidos pelo edificado mais antigo; ou ainda os custos (financeiros, processuais, de tempo) envolvidos na opção entre reabilitação e nova construção.

Por outro lado, a própria reconversão não é, na prática e na maioria dos casos, uma questão pacífica – envolvendo sempre percepções muito distintas do valor histórico e simbólico do edificado no qual se intervém; do significado da perda ou adulteração, normalmente irreparável, de determinados aspectos patrimoniais e de contexto urbano; do sentido que a reabilitação deve tomar; das opções arquitectónicas a adoptar, etc.  

2 – As autarquias queixam-se muitas vezes da relutância do Estado em ceder instalações suas para fins públicos, preferindo deixar os espaços ao abandono. (Veja-se o caso de Leiria relativamente ao Ex-DRM ou ao antigo convento dos Capuchos). Que comentário lhe merece esta atitude do Estado?

Não creio que exista uma “atitude” genérica do Estado. Parece-me antes que as autarquias devem ser responsáveis pela definição e apresentação aos potenciais parceiros de alternativas credíveis para a implementação dos seus programas, não devendo ficar reféns da falta de património próprio ou desculpar-se numa inércia genérica e abstractizada do Estado.

3 – No caso do Ex-DRM há muito que se fala na hipótese de instalar no local um museu de arte sacra. O que pensa desta ideia e o que poderia ser feito para valorizar a zona do antigo convento dos capuchos?

Penso que é uma ideia interessante, qualquer que seja a localização, cuja importância reside sobretudo na diversificação da oferta cultural existente, muito escassa, e na possível dinamização de um diálogo entre a arte sacra e outras formas artísticas contemporâneas. Julgo que este aspecto poderá ser essencial para o novo museu suscitar uma percepção mais fundamentada e alargada do seu sentido. Fundamental, em todo o caso, será o desenvolvimento do conceito museológico e de uma percepção objectiva do seu possível contributo para uma requalificação que, para ser eficaz, não se pode esgotar na simples construção de um novo edifício.

No que refere à zona do antigo Convento dos Capuchos, parece-me importante procurar (dentro das possibilidades) a melhor contextualização do conjunto edificado, redesenhar a envolvente, concluindo e articulando os arruamentos e verdes já existentes, e garantir a introdução de novos usos capazes de polarizar outras dinâmicas de desenvolvimento. Contudo, de um ponto de vista operacional, para que a requalificação alargada (e não apenas a reabilitação pontual do Convento) seja possível, parece-me indispensável, de um ponto de vista operacional, que a Câmara procure, por um lado, um envolvimento mais horizontal dos proprietários e potenciais promotores e, por outro, desencadeie um processo de efectivo planeamento (com melhores contrapartidas para o Município e consequências mais sustentáveis para a cidade).


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