Criatividade e Inovação

19 Jul

(Depoimento Jornal de Leiria, 1 de Julho de 2010)

Acredita que, se as cidades criarem as condições e forem atractivas para os criadores e inovadores, o tecido empresarial pode beneficiar ao mesmo tempo que se verifica desenvolvimento económico?

Para que sejam consequentes na perspectiva do desenvolvimento económico, a criatividade e a inovação têm de se constituir como componentes matriciais das empresas e da sua relação com o tecido empresarial, sendo que actualmente este aspecto corresponde, não apenas a um factor de qualificação, mas antes a um imperativo de sobrevivência de todo o sistema económico.
Por outro lado, com a generalização da sua importância a inúmeras actividades económicas, não é hoje clara a definição dos sectores onde a criatividade e a inovação poderão ser mais decisivas enquanto factores de qualificação da vida das cidades – o que, consequentemente, implica uma maior dificuldade na definição de políticas públicas objectivas para as actividades a apoiar (ou o tipo de condições que devem ser asseguradas no sentido de garantir e atrair determinado tipo de investimentos), e quanto às prioridades e tipo de desenvolvimento a estabelecer.
Obviamente, funcionando de forma sistémica, haverá sempre partes do tecido empresarial que beneficiarão da introdução de novas actividades onde a inovação e a criatividade têm lugar.

Qual o impacto ao nível da qualificação?

Contudo, tal requalificação poderá implicar também convulsões e mesmo a dissolução de actividades com menor capacidade de adaptação e/ou renovação – havendo sempre que equacionar, do ponto de vista social, as correlações estabelecidas entre estas e os níveis de emprego, domínio onde, apesar de tudo, se joga a sobrevivência do consumo e da mobilidade social (e que, em última análise, é o que continua ainda a servir de medida-padrão para a aferição da qualidade de vida das cidades), uma vez que as novas tecnologias, habitualmente associadas à criatividade e à inovação, não são só mais exigentes em termos da qualificação da mão-de-obra como, muitas vezes, implicam a redução efectiva dos recursos humanos envolvidos e a sua recondução para novas actividades.

Seria possível replicar em Leiria ou em cidades de média dimensão o que se passou no West End londrino, Bilbau, ou mais perto de nós, na rua Miguel Bombarda, no Porto, ou na Lx Factory?

Todos esses casos, envolvem de uma forma ou outra um tipo específico de actividade económica que tem na produção e no mercado artístico o seu alvo (quer especificamente através do turismo cultural, quer como ponto de partida para a regeneração material e funcional de partes mais desqualificadas das cidades) – correspondendo, assim, a apenas uma parte, na minha opinião pouco significativa em termos do incremento geral da qualidade de vida das cidades, do potencial de crescimento oferecido pela criatividade e pela inovação.
Nos casos portugueses referidos, importa referir que a emergência em Lisboa e no Porto desses dois clusters de actividades criativas se deu de forma relativamente espontânea – havendo por um lado, da parte dos investidores (privados), uma consciência nem sempre enraizada das vantagens trazidas pela proximidade de actividades funcionalmente idênticas (galerias, ateliers, mas também restaurantes e cafés como acontece, por exemplo, na Praça Rodrigues Lobo) e, por outro lado, a reunião de um conjunto de circunstâncias pouco replicáveis (e estranhas a uma estratégia concertada, como é o caso da LX Factory, cuja demolição estava prevista no âmbito da requalificação e regeneração planeada de Alcântara).
Neste sentido, parece-me que a replicação dos mesmos casos, sugerida na pergunta, é contrária ao princípio de criatividade que deve estar presente também nas políticas públicas de apoio ao tecido empresarial (de que fazem também parte as actividades dos casos indicados).
O que me parece importante é, sobretudo, a definição de orientações claras (de natureza desburocratizante e ao nível da correcta orientação dos investidores) e a garantia pública de oportunidades para novos investimentos, ainda que de natureza menos convencional.

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